Imaginemos que estamos numa confraternização com pessoas que pouco conhecemos, inevitavelmente alguém vai acabar perguntando o que fazemos. Numa das vezes acabamos falando sobre desenvolvimento sustentável dos territórios. Um dos presentes perguntou-me o que eu entendia por sustentabilidade, porque na visão dele era algo já superado. Fiquei surpresa! Em que medida?
Para ele o simples fato de podermos transformar um objeto obsoleto em um novo objeto já resolvia o problema da sustentabilidade. Ou de plantarmos uma área de monocultura para produção de papel, também já nos colocava um passo adiante da questão da sustentabilidade.
Contra argumentamos que a forma como nós pensávamos sustentabilidade supunha que as relações e atividades humanas, produtos e comércios não alterassem as estruturas dos ecossistemas. Atividades econômicas que impõem o monocultivo, mesmo com a proposta de reduzir os impactos do consumo do papel, mas que trazem sérias implicações para os ecossistemas poderão ser adjetivadas de sustentáveis?
Não alterar a estrutura de um ecossistema implica a não alteração dos seus componentes estruturais básicos, que são dois: os componentes abióticos (físicos – radiação solar, a temperatura, a luz, a umidade, os ventos; químicos – nutrientes presentes nas águas e nos solos; geológico – solo) e os componentes bióticos (seres vivos).
Num país onde os biomas correm sérios riscos de extinção dado o impacto da ação antrópica, ou já se encontram extintos como menciona o professor Altair Sales Barbosa de forma drástica em relação ao Cerrado, pensar em desenvolvimento sustentável do ponto de vista da não alteração das estruturas dos seus ecossistemas, é assumirmos como ponto de partida as relações insustentáveis que mantemos hoje, para redesenharmos ações estratégicas assentes numa visão de futuro sustentável, no sentido da redução de seus impactos.
O Bioma do Cerrado
Falemos sobre o bioma do cerrado que está presente nos estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piauí, Rondônia, Paraná, São Paulo e Distrito Federal, além dos encraves no Amapá, Roraima e Amazonas.
Em relação ao estado de Goiás os dados mostram como quase a totalidade da sua área é antropizada, com uma vegetação predominante do Reflorestamento de eucaliptos e pinus, tal como, sendo que a menor parte do território apresenta uma vegetação do tipo da savana.
Um dos motores de arranque das grandes monoculturas foram as queimadas para preparação dos solos, proporcionando elevados índices de emissão de gases e a destruição massiva do bioma. A agropecuária manteve-se também como a atividade responsável pelos índices de emissões de gases no estado de Goiás. E continua sendo a grande emissora de gases de efeito estufa do Brasil (70%) (WATANABE, Folha de São Paulo, 2017).
Emissões de Gases (GEE)
Entre agosto de 2016 e julho de 2017 houve uma queda na emissão de gases no país, muito devido à diminuição de 12% do desmatamento na Amazônia. Segundo a reportagem da folha, a redução de emissões poderia ter sido mais expressiva caso não fosse o aumento em 11% do desmatamento do Cerrado (WATANABE, Folha de São Paulo, 2017). Entre agosto de 2017 e julho de 2018 o desmatamento da Amazônia voltou a crescer 13,72% em relação a 2017, atingindo 3.949 Km2 em 12 meses (INPE/PRODES, 2018).
O bioma do Cerrado é quase duas vezes menor do que a Amazônia, tem 50% da sua vegetação já perdida e taxas de desmate muito próximas às da Amazônia (WATANABE, Folha de São Paulo, 2017). A possibilidade de o Brasil atingir a meta de redução de emissões até 2020 depende dos novos programas políticos, seus processos de descabornização das economias, das matrizes energéticas, além da redução dos índices de desmatamento que vêm crescendo de novo no último ano.
Viver de forma simples no paradigma da sustentabilidade
Autores como José Eli da Veiga falam hoje nos limites da continuidade da espécie humana e do conjunto de ecossistemas que compõem a nossa frágil biosfera, bem como do ponto extremo em que nos encontramos, não sabendo se é possível sequer ampliarmos o nosso tempo da existência e de gerações futuras.
O Cerrado é reconhecido pela riqueza da sua biodiversidade, tem muitas espécies endêmicas, mas que vivem hoje uma grande perda de habitat. Conforme dados do Ministério do Meio Ambiente, o bioma tem 11.627 espécies de plantas nativas já catalogadas, cerca de 199 espécies de mamíferos e uma rica avifauna compreendendo cerca de 837 espécies. Tem também um número elevado de peixes endêmicos, répteis e anfíbios.
O bioma do cerrado tem igual importância em âmbito social. Muitas populações e diferentes povos vivem dos seus recursos naturais, detendo conhecimento tradicional da sua biodiversidade. Existem mais de 220 espécies que têm uso medicinal e outras 416 podem ser usadas na recuperação de solos degradados, proteção contra a erosão, na criação de habitat de predadores naturais de pragas. Tal como aponta o Ministério do Meio Ambiente, mais de 10 tipos de frutos comestíveis são regularmente consumidos pela população local e vendidos nos centros urbanos, como os frutos do Pequi (Caryocar brasiliense), Buriti (Mauritia flexuosa), Mangaba (Hancornia speciosa), Cagaita (Eugenia dysenterica), Bacupari (Salacia crassifolia), Cajuzinho do cerrado (Anacardium humile), Araticum (Annona crassifolia) e as sementes do Barú (Dipteryx alata). Contudo, inúmeras espécies de plantas e animais correm risco de extinção (MMA, O bioma do cerrado [s.d.]).
Viver de forma simples que usualmente ligamos à diminuição do consumo de forma individual, associamos agora ao movimento global se pretendemos uma aproximação ao paradigma da sustentabilidade. Viver de forma simples requer um olhar sobre as ações coletivas sustentáveis como as mencionadas no parágrafo anterior. Mas também sobre as atividades econômicas que trazem impactos para as estruturas dos ecossistemas. Já que visamos a sua transformação imediata.
Chapada dos Veadeiros
A microrregião da Chapada dos Veadeiros , situada no norte de Goiás,é uma região onde podemos conhecer mais do cerrado, passando por Alto Paraíso de Goiás, Campos Belos, Cavalcante, Colinas do Sul, Monte Alegre de Goiás, Nova Roma, Teresina de Goiás e São João d’Aliança.
A presença de liquens na Chapada dos Veadeiros é um forte indicador de ar puro, sugerindo baixos índices de poluição no local.
Os Liquens têm uma natureza dupla, são formados pela associação simbiótica de dois organismos os fungos e as algas. Os organismos são muito sensíveis à poluição ambiental e radiação, por esse motivo não são encontrados em áreas onde há agravamento da poluição.

Os dois organismos têm vantagens com a sua relação simbiótica: a alga é responsável pela produção de alimento orgânico e realização da fotossíntese, sendo o fungo, por sua vez, o organismo que garante a proteção e um ambiente adequado para o desenvolvimento da alga (LOURENZO, Mariana, Líquens e sua importância ecológica, 2010).
Segunfo Márcia Käffer, “Os liquens absorvem da água e do ar os nutrientes para seu desenvolvimento. Se há algum poluente no ar, ele também é absorvido pelos liquens e se aloja em suas células, podendo até ser metabolizado” (Käffer APUD DINIZ, Liquens são usados como biomonitores de poluição em Porto Alegre, 2012).
Käffer é uma das pesquisadoras que avaliou a qualidade do ar da área urbana de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, usando liquens como instrumentos de biomedição, tal como menciona na sua publicação Environmental Pollution (2012).
O uso dos liquens no centro urbano permitiu estudar tanto a qualidade do ar da área avaliada, como as alterações causadas pela poluição na fisiologia e na morfologia de exemplares de Parmotrema tinctorum e de Teloschistes exilis e danos morfofisiológicos nesses organismos.
Biomedidores da qualidade do ar
Os liquens são sensíveis a compostos tóxicos. E acusam a presença de componentes tóxicos do ar poluído como o dióxido de enxofre; auxiliam no mapeamento de metais pesados ou no monitoramento da contaminação de substâncias radioativas (LOURENZO, 2010).
Nos organismos usados como instrumentos de medição da qualidade do ar em Porto Alegre foram detectados metais pesados como cádmio, mercúrio, zinco e chumbo, além de enxofre, resultado da queima de combustíveis fósseis e prejudiciais à saúde e ao meio ambiente. Os liquens já são usados como biomonitores em países europeus e nos Estados Unidos (Diniz, 2012).
Viver de forma simples no paradigma da sustentabilidade implica não apenas as nossas ações individuais, mas em termos globais, implica o alinhamento com os processos de descarbonização das economias.
O processo de descarbonização da economia passa por descarbonizar a energia em uso, usando fontes renováveis de energia, melhorar a eficiência do uso de energia e reduzir o consumo.
Para usarmos fontes de energia renováveis faz-se necessário desenvolver tecnologias ainda pouco conhecidas. E melhorar a eficiência energética implica a mudança de comportamentos face ao consumo, mas também face ao modelo econômico vigente, superando o “produtivismo” e o “consumismo” juntos. Um desafio necessário a qualquer perspectiva de mudança de paradigma.
Nas próximas postagens vamos continuar a falar sobre sustentabilidade, processos de descarbonização das economias e matrizes energéticas, bioma do cerrado, plantas nativas e curiosidades da sua biodiversidade.